UMA VISÃO CLÍNICA EM RSE
Dr. Gontran de C. Neto
Com notoriedade se percebe, em qualquer atividade, que nada é mais profícuo do que a experiência vivida e comprovada. Norteado por este pensamento, trago a ousadia de compartilhar a minha trajetória clínica em RSE neste texto, em que apresentamos, não respostas prontas ou um protocolo rígido a ser seguido, mas sim, levanto mais questionamentos a serem exaustivamente investigados por aqueles que buscam uma terapêutica de excelência, que possa dar ao ser humano a tradução dos seus mais profundos anseios e necessidades.
Convido aos leitores, meus colegas, estudiosos terapeutas de RSE, a viajarem comigo nessa caminhada e a refletirem e inserirem suas práticas nesta exposição. Talvez, muito do que aqui será apresentado, já foi ou é objeto de seus estudos. Prossigamos, então...
1- O terapeuta
Antes de começar o meu trabalho em RSE, me perguntava o por que de estar inserido em uma filosofia que tende a modificar muitos dos atuais paradigmas da Ciência moderna, colocando em evidência vaidades profissionais e interesses comerciais. Esbarrando em uma cultura que não privilegia o ser humano como gestor do seu estado de saúde e de seu bem-estar. A tarefa, inicialmente, era de fazer declinar o mais bravo guerreiro. E me incutia vislumbrar, que precisaria, no decorrer dessa jornada, de uma paciência de dar inveja a um monge tibetano. Então, por que começar? Hoje vejo que essas preocupações eram tolas em comparação com o que ainda estaria por vir.
Abracei a causa por jamais ter sido testemunha, em toda a minha vida acadêmica ou privada, de nenhum processo terapêutico tão abrangente e tão pertinente à demanda humana quanto o RSE. Porém, confiava que esta motivação não seria por si só, suficiente. Necessitava estar muito bem estruturado emocionalmente e com uma fundamentação básica de conteúdo teórico muito bem apreendida.
Há muito carrego a convicção de que, somente estando equilibrados poderemos atuar como terapeutas. Caso contrário, estaremos tentando suprir muito mais as nossas necessidades do que as do paciente. Um exemplo simples e típico seria a fala do terapeuta: “Meu paciente não me ajuda, é muito resistente!”. A pergunta é: por que deveria ajudar? E por que não resistir? Afinal, se o paciente tivesse um alto nível de consciência e fosse flexível, não teria procurado ajuda do terapeuta e se “resolveria” sozinho. Neste caso, o que estaria sentindo o terapeuta? Qual a sua real necessidade? A sua expectativa deveria prevalecer? Quando não aceitou o momento do paciente, quem foi resistente?
Se torna evidente que o melhor caminho para o terapeuta é a terapia. Como paciente. Isto já é realizado na Psicologia, onde psicólogos passam por periódicas supervisões (terapias). Os profissionais de RSE, como eu, que vivenciaram a celebração de serem tratados, atestam a sua validade. A forma de atuar e a visão terapêutica mudam de maneira assustadora. A experiência como paciente foi vivida pelo próprio idealizador do RSE, com resultados que o fizeram, inclusive, a dar um novo rumo às suas pesquisas e ao seu trabalho.
Entendo, outrossim, que a fundamentação teórica permanente é a base para que possamos atuar e fazer de nossa prática um diferencial terapêutico. A leitura constante e atualizada tem me fornecido ferramentas cada vez mais significativas, oferecendo maior segurança e recursos terapêuticos. A própria exposição do trabalho de RSE requer que estejamos muito bem preparados e com vasto conhecimento nas diversas ciências afins a essa filosofia terapêutica. A bibliografia que nos foi sugerida, bem como textos e artigos que nos foram apresentados na formação e atualizações clínicas, servem, inicialmente, de subsídios. Porém, não nos bastam, é o que tenho observado. Por isso, a pesquisa constante complementa esta demanda. Iniciamos recentemente na cidade do Rio de Janeiro estas atividades de estudo e pesquisa em nosso Núcleo de Estudo Permanente em RSE.
A formação em RSE não se encerra com a certificação, penso eu. O certificado, acredito, tenha sido a habilitação e motivação iniciais para uma constante e permanente busca de conhecimentos e habilidades necessárias a aplicação desse inovador método, de forma plena. Se você, se identifica de alguma forma com o até aqui exposto, continuemos...
2- O paciente
Após o primeiro passo nessa estrada, me perguntei: “a quem atender com o RSE?”
Hoje em dia, alguns pacientes nos procuram já indicados por outras pessoas que passaram pelo tratamento. Neste caso, evidentemente, a procura pelo método se faz voluntariamente. O indivíduo, embora não saiba como funciona, quer fazer o RSE, porque o amigo, conhecido ou parente obtiveram bons resultados.
Mas como foi no início? Quando absolutamente ninguém havia experimentado o RSE. Como abordar? E, principalmente, a quem abordar? O que nos faz identificar a pessoa em condições de realizar esse tratamento que não oferece respostas pré-estabelecidas, mas que, muito pelo contrário, sugere que o paciente assuma a responsabilidade pela sua cura?
Posso apresentar duas possibilidades essenciais nessa escolha. A primeira é identificar a prioridade do paciente. Se acima de tudo, o paciente colocar o seu estado de saúde como fundamental naquele momento e isto for para ele o mais importante, a abordagem poderá ser mais facilmente aceita. A segunda possibilidade, e a que considero determinante, é a necessidade. Quando o paciente identifica a sua necessidade, o “estar precisando”, é muito provável que ele abrace o tratamento como uma tentativa quase desesperada de ajuda.
Me parece necessário, pensarmos que, apesar dessas possibilidades serem importantes na escolha, o paciente não tem conhecimento do desenvolvimento do tratamento e de suas conseqüências. E que, talvez, o paciente não esteja preparado para entrar em questões tão íntimas, e, provavelmente, há muito tempo escondidas.
Lembro-me bem até hoje, da frase de nossa colega e psicóloga Zelinda Ortolandi, de que o paciente só chega até onde pode chegar. Isto me conforta e procuro dar esta consciência ao paciente. Ir além de seus limites, seria induzi-lo, o que é absolutamente proibido em nossa terapêutica. Penso, através dessa premissa, que o mais importante seria ajudar sem interferir.
Tendo feito a escolha, portanto, procuro fazer a abordagem mostrando os benefícios do tratamento de RSE em busca de um aumento dos níveis de consciência, colocando que, cumprindo este objetivo, podemos identificar melhor as possíveis alterações e realizar as escolhas de forma mais adequada, visando um reequilíbrio psicocorporal. A homeostasia ou, usando um termo mais atual, a homeodinâmica, já que o processo é dinâmico.
Utilizo, ainda, uma analogia. Me refiro que, quando estamos em nossa casa, somente permitimos entrar quem ou o que desejamos. A exemplo, o ladrão, quando vê movimento dentro de uma casa, vai procurar uma outra vazia, mais fácil de entrar. O mesmo ocorre com o nosso corpo, que é a nossa principal “casa”. O carregamos para toda parte, o tempo todo. Se estivermos “dentro” dele, com permanente consciência do que nele ocorre, seremos muito mais capazes de selecionar o que mais for adequado ao seu pleno funcionamento. Não lhe permitindo o que for nocivo.
Lembramos, que o paciente não vem pronto. Na maioria das vezes, não sabe o que é ter consciência, nem do que deve ter. Não sabe o que responder; para ele, sentir é algo novo e o perceber mais ainda. Penso que, nesse momento, nosso papel é de fundamental importância. Estando bem (lembram?), o terapeuta deverá respeitar o momento e o ritmo do paciente, sem apressá-lo, porém, incentivando-o e estimulando a sua curiosidade de “aprendizado”. E oferecendo-lhe o tempo necessário para suas descobertas. Entendendo, além disso, a sua eventual necessidade de recuo quando se depara com uma descoberta que o incomode. Creio que alguns de nós terapeutas que experimentamos o tratamento como pacientes já passamos e ainda passamos por esse processo.
Nunca enxergo o paciente como menor ou mais doente do que eu. Pelo contrário, muitas vezes, “me vejo” nele. E passo a me conhecer melhor através dele. A via é sempre de mão dupla. E, apesar de avaliá-lo, procuro nunca rotular. Quando rotulamos alguém, tiramos parte de suas chances, o limitamos como ser humano. Uso muito um pensamento, de que, talvez, a única chance que aquela pessoa tem, somos nós. Vou seguir adiante...
3- Avaliação
Algumas perguntas se fazem necessárias antes de iniciarmos um processo avaliativo. Quais sejam, por que avaliar? Para que avaliar? Como avaliar? O que avaliar? E tendo avaliado, como trabalhar com os dados obtidos?
Antes de tentar sugerir respostas, divido a avaliação em dois tipos distintos: a estática e a dinâmica. A primeira, seria baseada em dados obtidos inicialmente, num primeiro contato. É a mais utilizada e sobre a qual considero limitada. Comparo-a a uma fotografia tirada; e toda vez que necessitamos de subsídios a consultamos para resgatarmos o que foi verificado e diagnosticado. É a famosa “ficha do paciente”. Possuir essas informações iniciais é muito importante, porém, não devem se constituir como sendo determinantes no processo terapêutico, que, como sabemos, é um processo dinâmico. Que se altera constantemente.
Preconizo, em complemento à primeira, a avaliação dinâmica, realizada a cada vez que o paciente nos visita. É mais atual e de acordo com as necessidades apresentadas no dia do atendimento. Observa-se, deste modo, o paciente desde a sua chegada. Sua forma de andar, de olhar, sua postura corporal, seu vestuário, o tom de sua voz e principalmente sua queixa (não necessariamente a falada, mas a percebida subliminarmente). Devemos, creio, trabalhar sobre o momento do paciente, não somente sobre uma avaliação realizada num passado, mesmo que recente. Se pretendemos no processo terapêutico fazer com que o paciente esteja sempre no aqui e agora, como nos basearmos apenas em dados fora desse momento presente?
Podemos exemplificar o mecanismo destas distintas avaliações, trazendo um paciente inicialmente diagnosticado como tendo um padrão emocional característico de ansiedade. Tomando por base a avaliação estática, trabalharíamos sobre o padrão de ansiedade. Porém, em um determinado dia ensolarado de verão carioca, esse paciente nos chega usando um agasalho preto por sobre uma blusa, com os ombros exageradamente protusos, um caminhar arrastado e com um tom de voz quase inaudível. Qual seria a real necessidade do paciente naquele momento? Não deveríamos modificar nossa conduta de acordo com a necessidade atual?
Tentando responder as perguntas do início deste tópico, entendo que, avaliamos porque necessitamos direcionar e subsidiar nosso trabalho concretamente, não nos deixando conduzir apenas pelo “leme” intuitivo, que é de caráter pessoal e baseado em momentos distintos do terapeuta.
Avaliamos para que possamos obter o máximo de informações sobre o paciente e que estas venham, de fato, a ser trabalhadas. Se não formos utilizar esses dados, a avaliação perde o sentido. Dando mais um exemplo, se eu avalio o paciente como apresentando um perfil controlador, devo trabalhar objetivando dar a ele a consciência deste perfil para que possa decidir mantê-lo ou modificá-lo. Identificar e não tratar serve tão somente para suprir as necessidades egóicas do terapeuta, colocando-o num patamar “superior”.
Sobre como avaliar, acredito que deixei duas possibilidades a serem observadas. Gostaria que surgissem, a partir daí, outras, mediante a experiência clínica de meus colegas terapêuticas.
Já citei a importância de se manusear os dados obtidos e trabalhar sobre eles, sem o qual a avaliação perde em seu significado. A criatividade do terapeuta, evidentemente, se faz imperativa.
Obtivemos, em nossa formação, um roteiro de avaliação a ser seguido, o qual nos sugere o que avaliarmos. As informações ali identificadas, além de trabalhadas, nos servem de base para que saibamos como devemos lidar com o paciente em questão e como usá-las em favor do processo terapêutico. Enquanto o paciente não possuir consciência do seu estado, não devemos, em nenhuma hipótese, “alimentar” esse estado.
4- Tratamento
Este é o momento da “alquimia” terapêutica. Transformar todo o conhecimento em resolutividade. Nossa visão acadêmica cartesiana nos impulsiona, invariavelmente, para procedimentos “objetivos”. Ou seja, isto serve para aquilo. Outra coisa serve para aquilo outro, e assim por diante. É o grande desejo de quase todo fisioterapeuta. Mas esta, é uma visão mecânica. Em RSE, buscamos o orgânico. Sabemos que o corpo é um processo único. Se repetirmos o mesmo procedimento em momentos diferentes, os resultados nem sempre serão os mesmos. Por isso, como prescrever antecipadamente baseado em dados iniciais se o nosso “objeto” de trabalho muda a cada momento? Respeitando-se esse momento, penso eu. E baseando-se, acima de tudo, nele.
A imprevisibilidade é algo que por um lado parece assustador; por outro, fascinante. Viajar nesse caleidoscópio humano é tarefa árdua, porém, a que mais nos aproxima da possibilidade de oferecermos, de forma efetiva, o que de nós se espera. Tornar consciente ao paciente o seu estado se torna imperativo. Contudo, sem podermos contar o que foi observado a ele.
Existe um certo orgulho oculto do terapeuta quando este “descobre” quem é o paciente. Um desejo quase mordaz se apresenta com o pensamento de “eu sei, você não sabe”, “será que você não vê quem você é?”. Não, ele não vê. Se visse...será que estaria ali sob os nossos cuidados? Nosso papel é tão somente o de dar-lhe consciência. Fazer com ele chegue a se reconhecer e a partir daí, fazer suas escolhas. Nada é certo, nada é errado, apenas é o que se apresenta.
Num determinado momento me pergunto: “será que sei realmente quem é meu paciente?”. Ou ainda melhor, “sei realmente quem EU sou?”. Como posso conhecer verdadeiramente alguém, se não consigo me reconhecer?
Nosso objetivo maior deveria ser o de identificar as possíveis alterações do paciente e, em conseqüência disto, provocar estímulos sensoperceptivos que possibilitarão com que ele entre em contato com as suas questões e, se possível, elabore o melhor caminho a ser tomado dentro do seu contexto de vida.
Verifico, nestes anos de trabalho, que não existe uma receita ou conduta específica. Em muitas ocasiões, realizando um estímulo e esperando uma resposta característica da via trabalhada, obtive uma reação característica de outra via ou um padrão emocional diferente.
Observar o que no momento ocorre é o mais importante. Sem (pré)conceitos. Sem julgamentos. Sem onipotência. Respeitar acima de tudo o momento do paciente. Sem querer avançar no tratamento sob o pretexto de que somos os conhecedores do melhor caminho para o paciente. Avançar é induzir. Por que então não avançamos quando o assunto é o nosso auto-conhecimento?
Acreditar que atingimos um perfeito estado de consciência é a mais pura ilusão. Saúde, lembremos, é um processo dinâmico, contínuo. Pensemos e façamos, portanto, o mesmo com nossos pacientes. Neste trabalho de mão dupla. Em que, tenho a certeza, aprendemos muito mais do que oferecemos. Até para que possamos oferecer mais.
Espero ter contribuído para reflexões e para novas motivações em meus colegas terapeutas. Que possamos seguir adiante e juntos nessa jornada transformadora. E que nunca esgotemos este assunto.
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